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Segundo contam

O relato do carro amarelo do Julean

De Lages a Curitibanos, tarde da noite, num Niva amarelo.

Contado pelo Julean, do jeito que ele contou. É relato, não documento.

ilustração

O relato do carro amarelo do Julean

Era tarde da noite, e as pedras brancas da estrada pareciam engolir meu Niva amarelo, cercado pelo asfalto escuro e pelas sombras dos pinheiros.

A princípio, seria apenas mais uma viagem curta, de Lages a Curitibanos. Nada de especial. Até que o motor tossiu duas ou três vezes, perdeu força e morreu.

De repente, o mundo ficou quieto demais.

Encostei o carro à margem da estrada e desci. O frio gelado atravessou minhas pernas no instante em que abri a porta. Levantei o capô naquela esperança teimosa de sempre, como se simplesmente olhar para o motor pudesse convencê-lo a funcionar novamente.

Mexi em alguns fios, conferi o que consegui enxergar e, durante alguns minutos, fingi para mim mesmo que entendia alguma coisa de carburador.

Foi então que os postes começaram a piscar.

Primeiro um. Depois outro. Em seguida o próximo.

Um a um, até que todos se apagaram.

O silêncio ficou pesado.

Foi quando veio a luz.

Branca. Intensa. Difícil até de descrever. Não parecia exatamente uma claridade, mas uma presença. Algo que ocupava o espaço acima de mim.

Por um instante, lembrei das histórias que havia lido ao longo dos anos. Operação Prato. Documentos. Depoimentos. Casos estranhos que sempre pareceram suficientemente distantes para serem apenas interessantes.

Naquela noite, deixaram de ser distantes.

A luz parou exatamente sobre mim.

Senti uma pressão forte nos ouvidos. Depois, uma vibração no peito. O chão pareceu estremecer. O Niva tremeu.

E então...

Nada.

Quando abri os olhos, já não estava na estrada.

A sala onde eu me encontrava não parecia ter cantos. Apenas curvas escuras, contínuas, feitas de alguma coisa semelhante a metal molhado, mas sem qualquer brilho.

Havia figuras ao meu redor.

Altas.

Magras.

Moviam-se devagar, sem demonstrar pressa ou qualquer preocupação com a minha presença.

Eu queria perguntar alguma coisa, mas meu corpo não obedecia.

Elas não abriram a boca.

Mesmo assim, ouvi perfeitamente:

— Com esses cinco mil na conta... compra um Niva de três mil. Com os dois mil que sobraram, faz o motor e a funilaria.

O absurdo era tão grande que, por alguns segundos, tive vontade de rir.

Mas nem isso eu conseguia fazer.

Veio um zumbido.

Depois, outro apagão.

Quando acordei novamente, estava na minha cama.

A manhã era comum demais.

A luz entrava pela janela. O quarto estava exatamente como deveria estar. Só o relógio digital piscava, como costuma acontecer depois de uma queda de energia.

Durante alguns minutos, fiquei convencido de que tudo não passara de um sonho particularmente idiota.

Até entrar na garagem.

O Niva estava lá.

Girei a chave.

O motor pegou de primeira.

Funcionava redondo. Silencioso. Sem falha alguma.

Abri o capô.

Havia uma injeção eletrônica instalada com um capricho quase debochado.

Nada de peça velha.

Nada improvisado.

Nenhuma gambiarra.

Apenas uma eficiência silenciosa, impossível de explicar.

Até hoje, toda vez que giro a chave e o motor pega de primeira, fico alguns segundos escutando aquele funcionamento perfeito.

E ainda não sei se agradeço...

ou se tremo.

Julean

E você, já viu alguma coisa no céu da serra?

Todo relato começa com alguém que resolveu contar. O Livro de avistamentos está aberto.

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